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domingo, 19 de julho de 2009

O anjo no espelho


Narciso não tinha autoestima. Narciso, debruçado sobre as águas, apaixonou-se pela sua imagem sem saber que de si se tratava, então, não se amou realmente. Não conseguiu entender (ou talvez acreditar) que aquela beleza descomunal estivesse nele mesmo. Mergulhou para buscá-la além dele e o mergulho lhe foi fatal: a união de Eros e Tânatos no seu extremado ato.
Quem ama não mata, quem se ama não se mata. Havia Eco, uma ninfa transformada em voz, que amava Narciso, mas não podia ajudá-lo a compreender sua beleza. Eco era uma voz, mas não uma voz independente. Ela so repetia palavras. Era um eco. E mesmo se Narciso lhe perguntasse, ela apenas retornaria as mesmas palavras, sem acrescentar nada que o fizesse reconhecer-se belo. Amava Narciso, mas era só um espelho de palavras e a Narciso os espelhos de águas ou palavras, só lhe deram estigmas.
Trago Narciso aqui de novo, nem para falar para falar de narcisismo, nem de egocentrismo, mas da nossa difícil relação com a autoestima. Narciso não possuía autoestima. Tampouco egocentrismo e autoestima são sinônimos. Aliás, na maior parte das vezes a presença de egocentrismo denuncia a perigosa ausência da autoestima. Se queremos monopolizar todas as atenções, é sinal de que precisamos exageradamente da aprovação alheia, para nos sentirmos melhores.
Quando não há autoestima, abre-se espaço para atitudes reiteradas de autodestruição, que praticamos semiconsciente ou inconscientemente mesmo. Livrar-se do incontrolável anjo da autodestruição é tarefa hercúlea. Sabem as imagens do anjinho bom e do mau soprando coisas aos nossos ouvidos? Quantas vezes ficamos à mercê dos sopros do anjo mau? Com as coisas que envolvem autoestima é assim também. Há um anjo destruidor sempre a postos, que traveste ate de razão.
Se não nos gostamos de um jeito, queremos eliminar algo em nós. Se não gostamos de jeito nenhum, a tendência é querer eliminar tudo. E rechaçar qualquer tipo de lampejo de felicidade que nos venha do fato de sermos como somos. Mesmo que outros nos amem, duvidamos. Como é possível amar alguém como nós?
A Narciso,que não conseguiu enxergar a beleza que ele próprio irradiava, e se lançou a procura-la nas águas que o afogaram, faltou-lhe autoestima.
Faltou-lhe autoestima, mas Narciso não tinha como compreender essa falta. Ele era só um mito e os mitos não possuem compreensão. Mitos são forças brutas, aos mortais cabendo lapidá-los. Mitos existem para levar os mortais a entenderem de si mesmos. Esta é a função e o destino do mito: esperar algum Freud que os traduza. Nós, os mortais, se alguma vantagem levamos sobre os mitos, é a de poder traduzi-los e compreender a nós mesmos.
Às vezes demora. Ás vezes uma luz súbita nos ilumina. Às vezes, quando conseguimos eliminar o anjo mau da autodestruição, ele já conseguiu matar muito de nós mesmos.
E aí, como não diria Simone de Beauvoir, restará a vida, mas com “tempos mortos”.


Recebi esse texto por email

da minha amiga Fabrícia Alves!

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